Licença poética

Dentre as muitas experiências riquíssimas que pudemos desfrutar neste período que em breve se encerra, coloco no topo as aulas de literatura, poesia e narrativa jornalística com Fabrício Corsaletti, poeta e ora repórter das revistas sãopaulo e Serafina.

Com a humildade dos grandes (e uma dose de charme literato que inflamou as moças), Fabrício nos ensinou sobre Tchekhov, Joel Silveira, Raymond Carver, Angélica Freitas, Gay Talese, Rubem Fonseca. Realçando em voz alta as nuances escondidas ou nem tanto, chamando a atenção para aspectos estilísticos clandestinos e desapercebidos na matéria rica a que dão forma.

Deixou lições de casa. De minha parte, confesso, aplicado como há muito.

A seguir compartilho o resultado de um dos desafios, intitulado “amanhã quero uma descrição concisa de um objeto com que vocês tenham contato diário”. A foto é de celular. A objetividade é um mito. A intenção, verdadeira.

Apareceu sem aviso há duas ou três semanas e desde então polvilha ordem à indisposição sobre o computador. Nos arredores um colorido bloco de anotações, duas canetas azuis, uma preta, um rasgo de papel riscado, elástico envelhecido e botão caído da camisa. Atrás deles a tela brilha. Autoria creditada à metafísica e ao imponderável, infantil de um jeito bonito. Dobras em post-it laranja emanam formas de uma ave que voa lagoas no norte do Japão. Àquele povo, longevidade. Duas asinhas do tamanho das tampas das canetas saem de seu corpo, trabalhado por dedos em vestígios delicados. Da base, um hexágono, por detrás sobe uma cauda fina. Do outro lado um pescoço ascende sulcado e debruça, afinal: qué qué. Onisciente e sutil, reina a estação de labor o origami em tsuru.

qué qué

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Buenos Aires – Uma Ficção

CENA 1 –  Voô São Paulo – Buenos Aires

DOUGLAS LAMBERT, JOSÉ PETROLA e FERNANDA REIS estão sentados nos acentos J, K e L da fileira 14 do Airbus A320. PATRÍCIA BRITTO, ARRIGUE TALENTO e LUCAS SAMPAIO estão nos mesmos acentos da fileira seguinte, 15. Todos conversam.

LUCAS: Comprei uma tequila e o Gregório comprou um de Jack pra rolar o esquenta no hotel

DOUGLAS: Detesto tequila. Nunca tomei Jack. Dizem que é ruim. É de milho.

PATRÍCIA: Comprei um Cointreu…

DOUGLAS: Cointreu?! Puta bebida de tio!

PATRÍCIA: Ah, eu gosto. É gostoso…

DOUGLAS: Não to dizendo que é ruim, só que é bebida de tio. Ou aquela bebida que você serve quando quer transar.

FERNANDA: Que absurdo…

PETROLA, LUCAS, PATRÍCIA e ARRIGUE riem.

DOUGLAS: É! Você serve um Cointreu, coloca um Barry White… Sucesso!

REFERÊNCIA: Nathaniel Merriweather Presents… Lovage: Music to Make Love to Your Old Lady By

Barry White used to work
Shoot, even Abba used to work the way I was doin’ my thing
But man, you put this on
And the hos just go wild
I’m telling you
Music to make to your old lady by

***

CENA 2 – Chegada a Buenos Aires – Dutyfree

Grande salão repleto de produtos muito bem empilhados. Prateleiras cheias de perfumes importados. Chocolates suiços, americanos e toda uma sessão dedicada a prata da casa, o alfajor. Douglas Lambert e RAFAEL ZANATTO observam alguns produtos eletrônicos em exposição. Os primeiros acordes de “Careless Whisper”, do George Michael, começam a tocar de som ambiente…

DOUGLAS: Ai sim… Sensual pra caralho! Fala ai!?

Rafael ri um pouco constrangido sem entender a referência da cena anterior.

DOUGLAS: Isso sim é música de beber Cointreu!

CENA 3 – Quarto 310 do hotel Meliã, Buenos Aires

Quarto amplo com duas camas “de viúva” e uma de montar. Malas e roupas jogadas em todos os cantos. Sobre a mesa, mais roupas e muito papeís. Algumas sacolas plásticas vazias. Douglas Lambert, Rafael Zanatto, RAFAEL GREGÓRIO e MÁRCIO AQUILES bebem Jack Daniel’s enquanto se aquecem para um jantar na companhia dos demais trainees.

DOUGLAS: Cara, tava no El Ateneu da Florida quando comecei a ouvir a abertura daquele música… Paarárara paráááárárá paarárara… sabe? Aquele que tava tocando no aeroporto? Essa música não só grudou na minha cabeça como está me perseguindo!

Gregório e Zanatto riem sem achar muita graça na situação. Márcio Aquiles se veste como se nada daquilo estivesse acontecendo.

DOUGLAS: Depois eu percebi que era um peruano que tava tocando a música. Era só o instrumental. A parte que era pra ser o vocal era a flautinha de bambu… Fufurufurufururu… Rárárá. Mor estilo!

Gregório ri descontroladamente. Zanatto ri contidamente. Márcio Aquiles olha para trás para ver o que estava acontecendo e continua se vestindo.

GREGÓRIO: Flautinha peruana é foda pra caralho!

REFERÊNCIA – Sexy Sax Man Careless Whisper Prank feat. Sergio Flores

***

CENA 4 – Restaurante El Cardon, Buenos Aires

Mezanino do restaurante. Mesa para 16. Nas pontas, cabiam duas pessoas. Todos reunidos, felizes e conversando. JULIO e FÁBIO estão em uma das pontas. LUCCA ROSSI e Douglas Lambert sentam-se a direita deles. Marcio Aquiles, do lado posto, no outro extremo da mesa, ouve a conversa. O GARÇON  se aproxima com um vinho nas mãos.

GARÇON: Señor?

JULIO: Opa!

O Garçon serve um pouco um pouco do Zucarddi Série A. Julio prova, faz cara de quem aprova, e pede para servir um pouco mais. Vira-se para Fábio.

JULIO: Pra mim isso não quer dizer nada. Tanto faz…

Fábio, conhecedor de bons vinhos, ri enquanto prova o vinho.

DOUGLAS: Isso é igual quando quebra o carro na rodovia e o sujeito vai lá, levanta o capô, olha o motor, fecha o capô e liga pra seguradora.

Márcio Aquiles explode em gargalhadas, pegando todos de surpresa. O restante ri moderadamente.

DOUGLAS: Uau…

Lucca Rossi ri.

LUCCA: Tá engraçadinho, né? Bebeu?

***

CENA 5 – The Kilkenny Irish Pub & Restaurant

Ambiente enfumaçado. Decoração sóbria, como de uma casa de campo. No segundo andar, Rafael Gregório fuma um cigarro Gitanes e SÉRGIO MADURO fuma um charuto Monte Cristo. Patrícia Britto bebe alguma coisa em um copo indistinto enquanto ELEA ALMEIDA, mais bruta, bebe um drink de piratas a base de rum. Douglas Lambert, mais empolgado que os demais, fica muito feliz ao notar que na TV do canto está passando “Peter Capusotto y sus videos”.

DOUGLAS: Caralho! Esse cara é muito engraçado! Conhecem?

GREGÓRIO: Quem?

DOUGLAS: Peter Capusodio… é um cara muito engraçado. Ele tem um personagem muito bom chamado Bombita Rodrigues. É engraçado pra caralho!

ELEA: Com mil milhões de macacos! De que diabos você está falando?

DOUGLAS: Do Bombita! Vocês não conhecem o Bombita?! É muito engraçado. Tipicamente argentino! Muito engraçado…

PATRÍCIA: Você está bêbado… vai embora.

Douglas ri, joga uma bomba de fumaça no chão e desaparece em meio as tosses dos demais.

REFERÊNCIA – Bombita Rodríguez, el Palito Ortega Montonero.

***

CENA 6 – Piazzola Tango e Restaurante

Galeria elegante. No teto clarabóias deixam a luz da lua de Vesakha entrar e iluminar as paredes. Uma escada de dois lances leva ao subsolo. Lá, um teatro de paredes brancas com detalhes dourados acomodava aproximadamente 150 pessoas em mesas para grandes grupos. Todos os comem e bebem. Entra o LOCUTOR anuncia o ínicio do show. Tango cantado, dançado ou só instrumental se revezavam no palco. Próximo a metade do espetáculo um casal vestido à gaúcha e começa a dançar uma dança delicada. Em seguida entra um outro gaúcho entra e ambos começam a duelar. O primeira demonstra seu vigor físico pela velocidade do sapateado, o segundo pela resistência de movimentos de agachamento. Um duelo de opostos. Douglas Lambert vira-se para Rafael Gregório.

DOUGLAS: Muito bonito, né? Impressionante! Muito foda os caras dançando. Parece aquelas danças russas…

Rafael Gregório vira-se para o palco.

REFERÊNCIA – Martina Sorbara in the Basement Jaxx

***

CENA 7 – Ônibus fretado indo direção ao aeroporto de Buenos Aires

Ônibus pequeno para pouco mais de 20 pessoas. Branco. Dentro, cadeiras verdes e um forte cheiro de perfume de coco. Douglas Lambert está sentado sozinho na última poltrona da fileira de direita. Márcio Aquiles está na última poltrona da fileira da esquerda. Rafael Zanatto tenta dormir a sua frente. Douglas Lambert e Márcio Aquiles conversam sobre os livros que adquiriram na viagem.

MÁRCIO AQUILES: Não achei uns autores importantes que queria. A El Ateneu foi meio decepcionante. Muita Bagunça.

DOUGLAS: É. Na parte de quadrinhos só tinha Super-Homem! Nem Mafalda tinha!

MARCIO AQUILES: É…

DOUGLAS: Cara, tem um autor muito foda, americano. Fez um livro que foi publicado no Brasil pela Cia. das Letras… “Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo”… Muito foda…. Ai caralho… Como é o nome dele?… Zanardi! Como chama o cara que fez o “Jimmy Corrigan”?

ZANATTO: Não sei.

DOUGLAS: Putz… que desgraça. É um cara muito bom. Fez umas animações animais pra um programa de rádio chamado “This American Life”. Com umas rimas visuais lindíssimas. Muito bom…

Márcio Aquiles, com certo desprezo, balança a cabeça de um lado para o outro em claro sinal de desaprovação.

DOUGLAS: Chris Ware! Lembrei! Muito bom esse cara… Dá uma procurada.

Márcio Aquiles balança a cabeça em um movimento indistinto.

DOUGLAS: E ele é a cara do Petrola!

REFERÊNCIA – Franklin Christenson “Chris” Ware

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CENA 8 – Edifício Jóia, Bairro Diferenciado, São Paulo, SP

Quarto improvisado. Colchão de solteiro sobre cama japonesa de casal com cabeceira quebrada. Bagunça enorme. Roupa suja e mala por toda a cama. Cadeira com assento frouxo. Fios de computador e celular. Douglas Lambert entra e deixa as malas no chão. Deita na cama.

DOUGLAS: Caralho, que canseira…

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Teoria, prática e alfajores

Quando fiquei sabendo, com uma semana de antecedência, que teríamos uma viagem para a Argentina, gelei de pavor.

Nunca tinha viajado para fora do país. Nunca tirei passaporte na vida. Achava que não ia precisar dele tão cedo.

Chegando ao aeroporto de Buenos Aires, o primeiro choque foi passar pela imigração, sem entender nada do que a funcionária dizia. Senti que os dois anos de aula de espanhol que fiz foram tempo e dinheiro jogado fora. Não adianta passar horas estudando a diferença entre objetos diretos e indiretos na língua de Borges para depois ir à Argentina e não saber nem mesmo o documento que a funcionária da imigração está pedindo.

No começo, prestei atenção em todos os detalhes. Tudo parecia estranho – o clima, as paisagens, os cheiros, a arquitetura (lindíssima) da cidade, a língua. Até comprar um café ou um alfajor se transforma num desafio. Visitamos uma obra da Odebrecht em Tigre, cidade próxima de Buenos Aires, e também vimos as gráficas do Clarín e do La Nación.

Entre atividades de trabalho e pequenas brechas para passeios, comecei a me acostumar com a cidade. Percebi que funcionava mais falar em espanhol só o que eu tinha certeza e completar com português. No terceiro dia de viagem, já estava acompanhando conversas em espanhol com muita naturalidade.

Não é que as aulas tenham sido desperdício de tempo.

É que na prática a teoria é outra.

Aconteceu o mesmo quando comecei a fazer o trainee da Folha. Nos cinco anos de jornalismo na USP, eu tinha lido um pouco de quase todas as teorias da comunicação de que se tem notícia. E, na primeira semana de Folha, eu me dei conta de que tinha muita dificuldade para propor uma pauta. Algo que deveria ser o mais básico para um jornalista.

Foi difícil aprender. Ainda não aprendi. Mas vou tentando. Eu poderia muito bem fazer os exercícios de pauta de qualquer jeito, só para marcar presença. Mas tento me esforçar para aprender. Em Buenos Aires, eu podia comprar um café ou um alfajor mesmo falando só português. Os argentinos entendem. Mas me forcei a falar espanhol o tempo todo. Funcionou.

Não que a teoria seja inútil. Sem ter estudado a gramática, eu não teria conseguido manter uma conversa de quase meia hora com um vendedor de livros logo no terceiro dia de viagem. E, de certa forma, a teoria da comunicação da faculdade também me deu um olhar para encontrar pautas.

Caminho todos os dias entre a teoria e a prática e penso que uma não é inimiga da outra. Mas não adianta ter só a teoria se você não se levanta da cadeira e parte para a ação.

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“Sem selinho, Alckmin e Hebe lançam campanha do agasalho em SP”

Quinta passada fui ao lançamento da campanha do agasalho do governo do Estado com a repórter Daniela Lima. Ela é editoria de poder e queria repercutir a matéria que tinha feito sobre o encontro do Alckmin com Serra sobre a crise no PSDB na terça-feira a noite.

A Daniela me explicou que a Folha dificilmente dá agenda de político como matéria, e que vai a esses eventos porque são as únicas oportunidades de falar com eles para repercutir uma pauta em que se está trabalhando.

O evento foi no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, e contou com a presença da Hebe Camargo –garota-propaganda da campanha.

Havia expectativa se ela tentaria dar um selinho no governador como faz com todo mundo ou se, por ele ser sério, religioso e a Lu Alckmin também estar presente no evento, Hebe se seguraria.

A apresentadora acabou não quebrando o protocolo e o evento transcorreu sem maiores emoções, salvo pela irreverência e comentários engraçados da ilustre apresentadora de Taubaté.

Ao final do evento, uma tentativa de “coletiva de imprensa” improvisada foi parcialmente prejudicada por centenas de velhinhas tietes que invadiram o palco e tumultuaram o ambiente.

Hebe e Lu Alckmin demoraram uns 15 minutos para chegar ao lado do palco e falar com a imprensa. Em sua única chance, Daniela perguntou à Hebe por que não tinha rolado o selinho (em tempo: antes da cerimônia, ela tinha dado um no ex-senador Pedro Piva, presente no Palácio).

Ela ficou sem graça, disse que a Lu Alckmin estava ali, mas a mulher do governador liberou a bitoca porque “gostava muito da Hebe”. Alckmin chegou uns 10 minutos depois, quando as duas já tinham ido embora. O tão esperando selinho não rolou.

Quando estava praticamente do meu lado, ouvi o governador soltar um “não quero falar com a imprensa” para um de seus seguranças.

Empurra-empurra básico (de seguranças e de tietes da terceira idade que transbordavam do palco) e os repórteres resolveram insistir. Foram atrás do Alckmin e ele acabou falando algumas poucas palavras, sempre fugindo do conflito e respondendo algo que não tinha nada a ver com o que o repórter tinha perguntado (escola Paulo Maluf de entrevista coletiva).

Ele é extremamente educado e nunca vai dar uma resposta atravessada, mas também não espere dele grandes emoções. Quando você faz uma pergunta polêmica ele simplesmente finge que não ouviu e responde algo completamente aleatório, como manda o figurino político de ficar em cima do muro.

“Entrevista” feita, fomos para uma salinha que é disponibilizada aos jornalistas porque estávamos sem notebook.

Os computadores não funcionavam e fomos à secretaria de comunicação no Palácio. Pegamos um computador ainda pior e não teve jeito: Escrevemos o flash no bloco de notas mesmo e ditei por telefone à redação.

Antes, conversamos se deveríamos fazer um texto mais solto ou algo burocrático mesmo, um serviço para informar os leitores sobre a campanha. Decidimos por nos divertir e escrever um texto com mais “tempero”.

Tive a certeza de que acertamos no tom enquanto passava a matéria pelo telefone: A repórter que transcrevia o texto do outro lado da linha ria a cada frase que eu ditava.

O resultado dessa divertida experiência pode ser lida na Folha.com:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/911743-sem-selinho-alckmin-e-hebe-lancam-campanha-do-agasalho-em-sp.shtml

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Curso de direito: o relato de um sobrevivente

O curso de direito que tivemos com Gustavo Romano na semana passada foi um grande teste para os trainees. Usar roupas sociais foi a parte mais fácil.

Teste de agilidade e resistência: aulas de manhã, até às 13h, e depois apuração de uma pauta relacionada com o assunto, com fechamento às 18h.

Considerando que câmaras, assembleias e fóruns fecham cedo, tivemos na prática três horas para apurar cada matéria. Uma corrida contra o relógio. É desesperador.

Você procura as fontes, mas quase todas estão ocupadas, viajando, não podem dar informações e assim por diante. Foi assim na segunda e na terça, investigando projetos de lei em trâmite na Câmara Municipal de São Paulo. Foi assim na quarta e na quinta, quando tivemos de apurar o andamento de processos criminais.

Dá vontade de botar o telefone de volta no gancho, enfiar a cabeça entre as mãos e chorar. Mas segui em frente, insistindo em falar com juízes que não dão entrevista e assessorias que sempre pedem para retornar mais tarde.

Na sexta, tive mais sorte. O exercício era pegar uma notícia de um crime ocorrido há alguns meses e verificar em que pé está o processo. Minha pauta era investigar o processo contra dois homens presos sob acusação de tentativa de homicídio. Ninguém podia falar nada por telefone – nem delegados, nem advogados.

Entrando no site do Tribunal de Justiça, não foi difícil descobrir que o processo estava no Fórum Criminal da Barra Funda. Fui até lá, li o processo e voltei para a Redação com uma boa história nas mãos. Totalmente diferente da pauta inicial – eram três os acusados, e de vários crimes além da tentativa de homicídio. A matéria era esta.

Saldo: em média, um leão morto por dia.

Lições da semana:

1 – Um bom lugar para procurar pautas é a internet. Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal divulgam na internet a agenda diária e os projetos de lei em votação. Se você procura uma pauta de crime, vá para o site do Tribunal de Justiça do seu Estado. Ou o STF, STJ, dependendo da instância. A internet é uma mina de ouro para quem sabe procurar.

2 – A internet é ótima, mas só como ponto de partida. Algumas apurações só andam quando você deixa o conforto da cadeira e vai para o lugar. Por exemplo, na matéria de sexta, eu não teria conseguido nada se não tivesse lido o processo pessoalmente no fórum.

3 – Vale a pena aprender um pouco de Direito! Não precisa fazer 5 anos de faculdade, mas é essencial ter uma noção de como funciona a administração pública, o Legislativo, os caminhos de um processo judicial.

4 – Use roupas sociais. Não precisa ser terno, gravata e uma calça larga o suficiente para passar uma maçã, mas uma boa apresentação ajuda, pois alguns lugares exigem o protocolo.

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Da minha mesa…

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Somos educados com nossas fontes?

A semana de direito com o Gustavo Romano fez com que eu passasse de ignorante jurídico a conhecedor de alguns fundamentos do direito civil e criminal em cinco dias.

Além de aprender lições básicas de direito em tempo recorde, todos os dias praticávamos o conhecimento adquiridos produzindo matérias relacionadas a projetos de lei, pesquisando sobre propostas de emendas à Constituição (as PECs) e acompanhando casos que foram noticiados pela mídia e depois esquecidos. Acompanhar o desfecho e tão importante quanto divulgar um crime!

Fiz semana passada, desde o projeto de lei de um vereador que pretende criar 89 faixas exclusivas de ônibus em horários de pico em São Paulo (projeto que não tem estudo de custo e viabilidade de implantação, mas que foi proposto) até o acompanhamento da ação que o Ministério Público moveu contra um motorista que dirigiu 13km na contramão na rodovia Raposo Tavares e matou duas pessoas.

O prazo apertado – uma pauta por dia e menos de quatro horas para fazer a matéria, da apuração ao fechamento – deixou o editoria de treinamento em um ritmo alucinante. Foram dias intensos, uma prévia do que nos aguarda na redação.

Na correria para fazer um novo produto todo santo dia a partir do zero faz com que muitas vezes a gente se esqueça do básico: ser educado com as fontes.

Tão importante quanto aprender sobre direito e como ser preciso jornalisticamente com temas relacionados à advocacia foi a lição que Romano nos deu ao fim de um dos dias de atividade: era hora de ligar para todas as fontes que tínhamos entrevistado/tomado tempo durante a apuração, dizer que a matéria não ia sair no dia seguinte e agradecer a atenção que eles tiveram conosco.

Muitos deles pararam sua rotina para nos atender, alguns sem receber nada em troca. Muitas vezes – quando não sempre – nos esquecemos desse “detalhe” na correria do dia a dia.

Pela primeira vez refleti sobre nossa “educação jornalística” e me coloquei do outro lado. Como repórter, nunca tinha passado pela minha cabeça quantas vezes fui mal educado exercendo a profissão.

Era hora de consertar esse erro e, pela primeira vez, fazer o que sempre deveria ter feito: ligar e agradecer pela disponibilidade e atenção.

Em dois dias, um promotor público me passou seu celular pessoal em agradecimento e um advogado se surpreendeu com o meu retorno. A surpresa e satisfação em sua voz eram perceptíveis do outro lado da linha.

Por mais conteúdo e informação que eu tenha aprendido em cinco dias de estupro, homicídio doloso duplamente qualificado, Supremo Tribunal Federal e AGU, a principal lição de Romano veio de algo absurdamente básico: seja educado.

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